Páginas

sábado, 22 de junho de 2013

Itajara - A história da lenda revisitada


Há 30 anos nascia o mais emblemático cavalo da história moderna do turfe brasileiro

Itajara
Itajara e J.F. Reis pouco antes da Taça de Ouro
Nascido em 31 de outubro de 1983, nos campos do Haras São José & Expedictus em Rio Claro, São Paulo, ITAJARA foi muito mais do que um cavalo invicto, tríplice coroado, craque absoluto, garanhão de sucesso. Foi e é uma verdadeira lenda.
De origem nobre, Itajara (em tupi-guarani Senhor das Pedras) é filho do cavalo francês Felicio na égua brasileira Apple Honey, esta uma brilhante corredora produto do inglês Falkland na também brilhantíssima nacional Irish Song, ambas, mãe e avó, vencedoras da principal prova destinada a potrancas de 3 anos, o GP Diana. A linha baixa segue com éguas brasileiras e nascidas no São José até La Fleche, uma tordilha de 1946, descendente do nacional Santarém (18 vitórias, um dos pioneiros cavalos brasileiros de classe considerada internacional, pai do tríplice coroado paulista Funny Boy) na francesa Flechoise, portanto uma irmã própria do derby winner carioca Ever Ready.
Santarém
Santarém
A estreia de Itajara nas pistas (sempre na Gávea, Rio de Janeiro) se deu em outubro de 1986 numa carreira em 1100 metros, pista de areia encharcada. Largou com pequeno atraso, dominou a prova no meio da curva e pulverizou seus adversários na marca igual ao recorde de 1’06”2. Venceu por 100 metros sem ser exigido por seu jóquei, J.F. Reis. Por não ser considerado normal vencer estreando e em marca cronométrica exuberante, Itajara desde ali chamou a atenção dos aficionados, que aguardaram ansiosamente sua segunda atuação.
Pouco mais de um mês depois, em 23 de novembro, Itajara deu novo vareio, desta feita em 1300 metros, areia leve, marcando 1’19”8. Nem se deu o trabalho de correr na frente, assumindo a dianteira na entrada da reta e vindo para o disco em ritmo de cânter, mesmo assim com cerca de 8 corpos de vantagem.
Em 13 de dezembro manteve a série, agora em 1600 metros, assinalando o tempo excepcional de 1’37”4, areia leve, numa prova que recebia o nome de “80 anos do Haras São José & Expedictus”, justamente seu criador. Nessa ocasião, travou violenta luta pela ponta da partida até a entrada da reta com o 3 anos Maraco, até ali com 3 vitórias e que posteriormente seria vencedor do GP Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. O tordilho Hibal, 3 anos mais velho que Itajara e dono de 7 vitórias até então, incluindo prova clássica, foi o 4º colocado. A vitória, mais uma vez, foi por mais de 5 corpos.
Itajara
Itajara recebendo merecido afago
Ninguém duvidava tratar-se de um cavalo fora do comum, mais um da estirpe dos Paula Machado. Porém, faltava abordar a pista de grama e os melhores potros da sua geração.
A primeira corrida na esfera nobre de Itajara ocorreu justamente em seu debute na grama. Foi na prova inaugural da tríplice coroa, o GP Estado do Rio de Janeiro, na milha, em 22 de fevereiro de 1987. E ali o craque das cores azul e ouro não deixou dúvidas quando ao seu poderio locomotor. Após partir novamente com ligeiro atraso, perseguiu o ponteiro Casmurro, ganhador do GP Linneu de Paula Machado G1 e 2º na Copa ANPC Milha contra os mais velhos, para dominá-lo na altura dos 700 metros finais. Na reta, fugiu de seus perseguidores, mas, pela primeira vez, sentiu o rigor de Reisinho, seu piloto, que o alertou com o chicote duas vezes na altura dos derradeiros 100 metros. A firme vitória sobre For Merit culminou com o novo recorde da distância, percorrendo os mil e seiscentos metros em 1’33”4.
Antes de correr a segunda prova da coroa, Itajara encarou, em 2000 metros, pista de grama encharcada, no dia 5 de abril, o GP Francisco Eduardo de Paula Machado, a Taça de Ouro. Largando na baliza um, Itajara pulou na frente, mas foi logo dominado por For Merit. O filho de Depressa tentou escapar, porém Reisinho manteve seu pilotado a pouco mais de um corpo em segundo. No final da curva, Casmurro, o terceiro, já corria afastado, com dificuldade para acompanhar o ritmo dos ponteiros. Bastou que entrassem na reta de chegada para Itajara emparelhar e dominar a prova, fugindo para o disco com cerca de 10 corpos de vantagem. Tirou da boca do saudoso locutor Ernani Pires Ferreira os adjetivos “assombro e extraordinário” ao galopar na seta dos 50 metros finais, fácil.
Em 31 de maio Itajara foi correr a 2ª prova da coroa, o GP Cruzeiro do Sul, Derby carioca, na clássica distância dos 2400 metros. Largando bem aberto, cruzou o disco na primeira passagem atrás do paulista Tiago, do Haras Faxina, com Albenzio Barroso no dorso. Shelter, do Haras São José da Serra, que depois seria vencedor de dois Grandes Prêmios de G2, vinha em terceiro. Em quinto corria a égua Radnage, vencedora do OSAF paulistano contra as mais velhas no início daquele mês. Entre os últimos corria Jabble, vencedor do Derby Paulista. Na entrada da curva, Itajara dominou ao natural o então ponteiro e começou a livrar vantagem para seus rivais. Nos 400 metros finais, o craque recebeu novos adjetivos de Ernani: “Super Itajara”, “monstro”, e recebeu o aplauso entusiasmado da plateia, já que a vitória estava assegurada e por incríveis 16 corpos.
Itajara
Itajara vencendo por 16 corpos o Derby Carioca
Finalmente, a consagração da tríplice coroa estava perto. Era a sétima corrida doSecretariat brasileiro. O público lotou o hipódromo para ver mais uma atuação do Senhor das Pedras, o Senhor das Pistas. Desta feita, o animal sempre treinado por Francisco Saraiva afastou seus adversários ainda antes da prova. Apenas dois se atreveram a enfrentar Itajara. Condicional, nono colocado no Derby, e Chalais, que nunca tinha atuado acima da milha, alinharam no partidor para o GP Jockey Club Brasileiro, em 3000 metros. Jorge Ricardo e Gonçalino Almeida, os jóqueis adversários, não chegaram a incomodar Reisinho, nem tentaram qualquer tática suicida. Praticamente foram espectadores da coroação da lenda, vencedor por mais de 20 corpos daquela que foi sua última apresentação nas pistas.
Itajara
Itajara em sua última atuação
Sua programação era encarar os mais velhos no GP Brasil, dois meses depois. Uma lesão no tendão, entretanto, acabou por causar o encerramento de sua campanha. Despediu-se de uma multidão no dia daquela prova, trazendo comoção à Gávea, que assistiria a vitória de Bowling horas depois.
Na campanha de Itajara, quem mais o ameaçou foi For Merit. Depois do vareio que levou na Taça de Ouro, ficou 3 meses parado. Voltou vencendo dois grandes prêmios seguidos na milha, contra os mais velhos, e encerrou campanha após fracassar na milha internacional em São Paulo. Teve alguns poucos filhos na reprodução, numa geração só, nascida em 1990, entre eles o ganhador clássico Lurex.
Itajara na reprodução gerou, no Brasil, 197 filhos. Sua primeira geração nasceu em 1988. Com apenas 14 produtos registrados, deu o ganhador de G1, Ozanam. A geração seguinte, bem maior, deu os bons Piraguara, Pindara, Pituna e Pyaguassu. Sua terceira fornada revelou o craque internacional e grande garanhão no Brasil Romarin. O fantástico Siphon marcou definitivamente o stud record de Itajara, em sua quarta geração, ao conquistar mais de 3 milhões de dólares em prêmios e produzir ganhador de G1 nos Estados Unidos. Depois de duas gerações nem tão brilhantes, mas que produziram as clássicas Una Brisa e Uma Brasa, Itajara foi cobrir na Argentina em 1993, ajudando a formar a sensacional letra V do São José & Expedictus, com Vitalina, Vaclav e Very Chic. Foram 32 os produtos nascidos naquela que seria sua última geração.
Siphon
Siphon vencendo o Santa Anita H. G1 nos EUA
Contribuiu na genética nacional também como avô materno: Chan Tong, Coray, Cruzada Americana, Indianette e muitos outros são bons exemplos.
Itajara morreu vítima de bambeira em 20 de fevereiro de 1994, no Haras El Alfafar, na Argentina. Sua história é o registro de que muito mais do que um craque, Itajara é uma lenda imortal do turfe brasileiro.
Resumo da Produção de Itajara:
  • Gerações em Idade de Corrida:                                7
  • Produtos Registrados no Brasil (inc. importados)        220         Aos 2 anos
  • Correram                                                              166         62
  • Ganhadores                                                          140         19
  • Ganhadores Black Type                                           15           1
  • Colocados Black Type                                             20           2
  • Itajara
    Itajara em sua despedida no dia do GP Brasil

3 comentários:

  1. Linda e triste história de um campeão.Quem viveu essa época sabe das vitórias maravilhosas desse cavalo. Era um fenômeno. parabéns pelos esclarecimentos.

    ResponderExcluir
  2. Morreu em 1997 , não em 94.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Existe uma publicação de revista de 1994 informando o falecimento dele

      Excluir